quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A Confissão

Expoente do cinema político, o diretor grego Constantin Costa-Gavras realizou uma crítica aguda da burocracia stalinista do Leste Europeu: A Confissão (L'Aveu, França-Itália, 1970). Dois anos antes, Costa-Gavras denunciou, no filme Z, o golpe dos coronéis ultradireitistas gregos. Em 1982, o alvo foi a ditadura chilena, com o sensacional Missing (Desaparecido, Um Grande Mistério). 

A Confissão levou às telas as memórias de Arthur London. Militante revolucionário tcheco-eslovaco, combateu ao lado dos republicanos na Guerra Civil Espanhola e na Resistência francesa. Cosmopolita, London morreu em Paris, no ano de 1986.

A trama, que começa em 1951, se passa na extinta Tchecoslováquia. À época, paredes ostentavam retratos de Josef Stalin e do líder local Klement Gottwald.

Agentes de segurança do Estado sequestram o vice-ministro de Relações Exteriores, Gérard (Yves Montand, em grande atuação). Detido, acusado de trair o Partido Comunista, único legal, e de aliar-se ao imperialismo, é submetido a humilhações e torturas, físicas e psicológicas. Os carcereiros ordenam, a quase todo momento, "ande!", "ande!", "ande!" ou "deite na posição correta!", "deite na posição correta!".


Filme faz forte crítica aos regimes autoritários do Leste Europeu 

Gérard rejeita as imputações, evidentemente mentirosas. Mas o partido não pode se enganar, reconhece qualquer militante da ortodoxia soviética. Gérard afirma que é melhor errar dentro do partido do que está certo fora dele. Aos poucos, cede às pressões. Ao lado de outros 13 dirigentes, entre eles o secretário-geral do partido, vai a julgamento. Acusados de trotskismo, titismo e sionismo – considerados "crimes" pelas autoridades –, devem confessar. Há duas penas possíveis: enforcamento ou prisão perpétua. A natureza do expurgo é implacável.

Nesse cuidadoso trabalho, Costa-Gavras explicita as falsidades, as manipulações e o caráter antissemita que envolviam o processo judicial.

Assim como a autobiografia do internacionalista Victor Serge, Memórias de Um Revolucionário, A Confissão mostra a mecânica do aparelho repressor do Estado stalinista. O contraste entre o genuíno idealismo e a realidade do regime choca.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Scarface (primeira versão)

Clássico filme de gângsteres, Scarface (Estados Unidos, 1932), com direção de Howard Hawks e roteiro de Ben Hecht, provocou forte reação no público. Inspirado na vida de Al Capone, a trama retrata o domínio do crime organizado sobre a sociedade americana. Na abertura do longa, o espectador é advertido de que a obra consiste em crítica à inércia do governo diante do problema. Paul Muni (A Vida de Émile Zola e A História de Louis Pasteur) dá corpo a Tony Camonte, o frio, violento e incestuoso personagem-título. Também no elenco, Boris Karloff.

Na explosiva Chicago do fim dos anos 1920 e início da década seguinte (época da Lei Seca), delinquentes controlam o comércio ilegal de bebidas alcoólicas. O ítalo-americano Scarface, em começo de carreira, integra o baixo escalão de uma das gangues que age no ramo. Rapidamente, Scarface ("Cara de Cicatriz") – apelido íntimo de Al Capone – ascende no grupo.

Com brutalidade, audácia, tiros e socos, o ambicioso anti-herói assume o comando da quadrilha. Nessa guerra interna, conquista, além do posto, a mulher do chefe.

A mudança de posição na hierarquia coincide com a posse da submetralhadora portátil modelo Thompson M1928, que "varre os inimigos". Scarface reconhece nessa arma fonte de poder. "O poder político nasce do fuzil", salientou, em 1938, o líder comunista chinês Mao Tsé-Tung.


Paul Muni (C) interpreta o personagem-título do filme de Hawks

Baseado em fatos reais, a película tem cenas memoráveis. Como o emblemático Massacre do Dia de São Valentim, em 1929. Nesse dia, sete homens de um bando rival de Al Capone foram fuzilados. Na comédia Quanto Mais Quente Melhor (1959), de Billy Wilder, os músicos interpretados por Tony Curtis e Jack Lemmon testemunham o evento, o que provoca a fuga da dupla.

Em 1983, Brian De Palma realizou o remake de Scarface. No papel central, Al Pacino. O trabalho de De Palma, dedicado a Hawks e Hecht, tem traços bem distintos do original. Naquele, Al Pacino vive um emigrado cubano, contrário ao regime socialista da ilha, que chega aos Estados Unidos para vencer no tráfico de cocaína.

A primeira versão de Scarface permanece, depois de tanto tempo, um intocável marco cinematográfico do gênero policial.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Duelo de Titãs

Filme diretamente influenciado por Matar ou Morrer, sensacional western com Gary Cooper, Duelo de Titãs (Last Train From Gun Hill, Estados Unidos, 1959) traz no elenco os astros Kirk Douglas e Anthony Quinn. Realizado por John Sturges (Sete Homens e um Destino e Fugindo do Inferno), Duelo de Titãs mantém pontos em comum com a obra-prima dirigida por Fred Zinnemann.

A vida do xerife Matt Morgan (Douglas) se transforma quando sua mulher morre violentada por dois vaqueiros. Ela é índia, o que provoca o desprezo dos algozes. Matt agarra-se a duas pistas: a cela com as iniciais de Craig Belden (Quinn) e ao fato de que um dos criminosos tem uma ferida no rosto. Determinado a prender os culpados, parte de trem para a cidade de Gun Hill, onde espera capturá-los.

Matt procura Craig, o homem mais poderoso e temido da região.  Os dois, na realidade, são velhos amigos que há anos não se veem. Do encontro caloroso nasce a certeza, em ambos, de que o único filho de Craig é o principal envolvido no delito. Em Gun Hill, ninguém, nem mesmo a autoridade policial local, está disposto a ajudar o herói, com exceção da prostituta Linda (Carolyn Jones).  

O herdeiro cai nas mãos do forasteiro, que o leva algemado e desmaiado ao hotel. No quarto, Matt aguarda o trem das 9h da noite para retornar. Furioso, o pai e seus capangas tentam resgatá-lo. Acuado, sob tiros e golpes de astúcia de Craig, Matt resiste. Precisa conduzir o bandido a julgamento. Antes de embarcar, enfrenta derradeiro obstáculo, o duelo com o melhor amigo.


Kirk Douglas enfrenta a hostilidade dos moradores de uma cidade

A cena do quarto do hotel – homem algemado sob o domínio da arma de outro – foi repetida em Ambição Acima da Lei,  western dirigido, estrelado e produzido por Kirk Douglas em 1975. Porém, neste caso, a situação inverteu-se, com Kirk subjugado. Sutilezas do cinema.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Kanal

Kanal (Polônia, 1957) é o segundo filme do prestigiado cineasta Andrzej Wajda, realizador de Cinzas e Diamantes e Lotna. Também trata da experiência polonesa na Segunda Guerra Mundial.

À época do lançamento, Kanal causou forte impressão em festivais. As imagens de combatentes irregurales poloneses nos esgotos da capital Varsóvia, destroçada pelos alemães, são, sem dúvida, espetaculares.


Sequências nos esgotos de Varsória causam forte impressão

A história se passa em 1944, quando a cidade se revolta contra a ocupação nazista. O Exército Clandestino Polonês, que conduz a revolta, espera a chegada em breve dos soviéticos. Porém, as forças de Stalin interrompem o avanço. A resistência dura 63 dias. Milhares de civis foram assassinados.

Wajda acompanha a luta final de uma unidade de insurretos. Desde o início do drama, quando a câmera acompanha a marcha do grupo, o espectador sabe o destino de cada patriota – a morte. Quem diz é o próprio narrador, que apresenta os personagens principais.

A batalha primeiro se trava nos escombros dos prédios. O poder de fogo alemão obriga a tropa a bater em retirada. Os canais subterrâneos são o caminho de fuga. Mesmo com alguma relutância, todos seguem a ordem. No labirinto de excrementos, lutam desesperadamente pela vida e pela vitória. Enfrentam gases, tiros e armadilhas do inimigo. Onde está a saída? Onde está a saída?

Ao lado de Geração e Cinzas e Diamantes, Kanal integra a chamada Trilogia da Guerra de Wajda. O próprio Wajda lutou na resistência polonesa. O pai do cineasta foi morto na floresta de Katyn, em uma execução em massa contra acusados de espionagem promovida por agentes soviéticos. Em 2007, o diretor realizou o longa Katyn. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Gilda

Quando se pensa em Rita Hayworth,  Gilda (Estados Unidos, 1946) surge automaticamente. Ápice do estilo noir, o drama imortalizou a atriz como símbolo sexual de Hollywood. O diretor Charles Vidor soube conduzir o filme de forma eficiente. Extraiu o máximo da beleza e capacidade de interpretação de Rita, que compôs com Glenn Ford o par romântico da trama.

O jogador de dados e cartas Johnny Farrell (Ford) – também narrador da história – chega a Buenos Aires, na Argentina, em 1945. Durão e trapaceiro, Farrell, que quer recomeçar a vida, torna-se o homem de confiança de Ballin Mundson (George Macready), dono do luxuoso cassino clandestino. O patrão viaja. Retorna, agora casado com a ex-dançarina Gilda (Rita).

Farrell e Gilda são, na realidade, antigos amantes. Os dois, sem muito sucesso, procuram esconder o passado. O marido desconfia. A situação leva Farrell a  agir com cautela. Precisa resolver ou esquivar-se dos problemas causados pela provocante mulher do chefe. Resistir a Gilda?

Ballin conserva outros negócios escusos. Mantém ligação com investidores nazistas. A Argentina, deve-se frisar, foi receptiva às ideias da direita radical europeia e refúgio para criminosos de guerra.

Para instigar ciúmes em Farrell, a musa protagoniza um dos momentos sensuais mais célebres do cinema. Dentro do vestido longo negro, canta, dança e tira a luva ao som da música Put the Blame on Mame. A plateia delira. A fama de Rita Hayworth vem, sobretudo, dessa cena.


Rita Hayworth protagoniza cena sensacional

Modelo da femme fatale, Gilda, como gosta de dizer, tem "dificuldade para fechar o zíper" da roupa. "Se eu fosse uma fazenda, não teria cercas", define-se. Gilda – a mulher e o filme – é espetáculo único. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Grande Guerra

Mestre da comédia, Mario Monicelli, de O Incrível Exército de Brancaleone (1966) e Meus Caros Amigos (1975), dosou humor e drama para realizar A Grande Guerra (Itália, 1959). O filme acompanha a trajetória de dois soldados durante a campanha italiana na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Nos papéis principais, os astros Alberto Sordi, que interpreta o romano Oreste Jacovacci,  e Vittorio Gassman, na pele do milanês Giovanni Busacca.


Os astros Alberto Sordi e Vittorio Gassman lutam em trincheiras

Contraditórios, Jacovacci e Busacca  misturam malandragem, covardia e heroísmo para sobreviver ao conflito, uma guerra total. Do momento do alistamento, quando Jacovacci trapaceia o refratário Busacca, ao combate nas lamacentas trincheiras contra as forças austríacas, os dois utilizam o que têm em mãos para se manterem vivos. O tempo é de colapso social, econômico e moral. Dos escombros da carnificina, uma nova, instável e sombria Europa emergirá.

Pelo senso crítico, duas passagens merecem menção. Um general – homem distante da realidade das tropas – experimenta a comida dos soldados. Todos sabem, inclusive o oficial, que o gosto é horrível, mas o descontentamento não pode ser expresso pelos subordinados. Na outra, Jacovacci mostra alegria ao dizer que uma criança nascida em 1916 não vestirá farda num confronto bélico – 23 anos depois, em 1939, estoura a Segunda Guerra Mundial, que dura até 1945. A Itália luta, de forma ineficaz, em ambos eventos.

A Grande Guerra recebeu o Leão de Ouro – o prêmio de melho filme – no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 1959. Dois anos antes, Stanley Kubrick lançou Glória Feita de Sangue, com Kirk Douglas, a respeito da falta de escrúpulos de integrantes do Estado-Maior francês na Primeira Guerra Mundial.

Acontecimentos no front italiano serviram de inspiração para Ernest Hemingway escrever o romance Adeus às Armas. O livro recebeu adaptações para o cinema.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Geração

Filme de estreia do diretor Andrzej Wajda, Geração (Polônia, 1954) guarda qualidades cinematográficas. Realizado sob o prisma do neorrealismo, narra a mobilização antifascista na Varsória ocupada pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. O drama, de bela fotografia, foca um grupo de jovens comunistas que, com bravura e autossacrifício, combate as forças invasoras. No elenco, o novato ator e futuro diretor Roman Polanski – assim como Wajda, formado na escola de cinema de Lodz.

Em 1942, a barbárie alemã esmaga a arruinada capital polonesa. Humilhações, torturas e assassinatos eram habituais. Nesse contexto, um jovem operário entra em contato com a resistência comunista. Movimento organizado na clandestinidade, tem a tarefa de enfrentar os nazistas e seus colaboradores locais. Além da luta pela causa da liberdade, o personagem conhece o amor e a dor da perda.


Ao fundo, o jovem ator e futuro diretor Roman Polanski

Wajda utiliza sequências de grande carga dramática para contar a história. Enquanto vão ao trabalho, os poloneses passam por homens enforcados – é necessário, para o dominador, provocar o medo. Ao lado do Gueto de Varsóvia em chamas, o parque de diversões dos nazistas continua a funcionar. No gueto estava confinada a população judaica. Em meio à fome, doenças, morte e deportações, explode o levante contra as tropas inimigas. A película exibe o auxílio dos revolucionários aos insurretos.

Após Geração, Wajda enveredou-se por outras linhas políticas e fontes de inspiração estéticas. Para efeito de ilustração, em Cinzas e Diamantes (1958) há influência direta do cinema americano, notadamente de Cidadão Kane.

A respeito das manifestações artísticas da Europa Oriental pró-soviética, uma observação do historiador britânico Eric Hobsbawm, no livro A Era dos Extremos, vale ser reproduzida. "(...) mesmo onde, como na Polônia, a rejeição do regime existente se tornou total, todos, com exceção dos mais jovens, conheciam o suficiente da história de seu país depois de 1945 para captar os tons de cinza além do preto e branco da propaganda. É isso que dá uma dimensão trágica aos filmes de Andrzej Wajda (...)", afirmou.