sábado, 30 de junho de 2012

Rômulo e Remo

Épico, Rômulo e Remo (1961), dirigido por Sergio Corbucci, é emblemática obra do cinema popular italiano. O longa narra o mito de fundação de Roma, em 753 a.C., pelos gêmeos Rômulo (Steve Reeves) e Remo (Gordon Scott).

Ambos atores foram ídolos de parte da juventude nos anos 50 e 60. Carismáticos, Reeves, em papéis como o de Hércules, e Scott, na pele de Tarzan, empolgaram jovens nas matinês, entre eles o meu pai.

Filhos de um deus e de uma sacerdotisa, Rômulo e Remo sobrevivem amamentados por uma loba, após a mãe ser forçada a abandoná-los. Criados entre pastores, crescem fortes e exímios guerreiros. Depois da destruição da lendária Alba Longa, partem para criar uma nova cidade. Nasce a discórdia. Rômulo funda Roma e o irmão, enfurecido, o desafia. Rômulo vence e torna-se o primeiro rei da joia do Lácio.


Scott (E) e Reeves (D)

Parcela significativa dos especialistas jamais aceitou Corbucci. Mas fico ao lado de Jean Tulard, autor de Dicionário de Cinema - Os Diretores. Corbucci é um bom contador de histórias e que, apesar do material que tinhas nas mãos, fez um bom trabalho, afirmou Tulard.

Sergio Leone, realizador de Por um Punhado e Dólares,  Era Uma Vez no Oeste e Era Uma Vez na América, hoje cultuado com razão por críticos e cinéfilos, vem do mesmo meio de Corbucci. Aliás, Leone é um dos oito roteiristas de Rômulo e Remo.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

El Cid

Rever El Cid (Estados Unidos-Itália, 1961) será sempre prazeroso. Realizado pelo mestre do western Anthony Mann, o épico narra a saga de El Cid, lendário herói espanhol da Reconquista, movimento católico de recuperação das terras da Península Ibérica sob domínio muçulmano. Tal poder se estende do século 8 a 1492, quando cai o último reduto mouro, Granada.

A história começa em 1080. Forças católicas e islâmicas se enfrentam. Charlton Heston interpreta o nobre Rodrigo Díaz de Bivar, o El Cid (em árabe, cid significa senhor). Acusado de traição por ter libertado inimigos, El Cid mata o campeão do rei de Castela, pai de Ximena (Sophia Loren), sua noiva. Ele mesmo acaba por se tornar campeão do monarca.

A desgraça chega a Rodrigo. Parte para o exílio. Mas novamente nos braços de Ximena, que lhe perdoa, recebe o apoio de tropas dispostas a segui-lo, mesmo banido. Ameaçados por invasores oriundos da África do Norte, cristãos e mouros unem-se, por meio de El Cid, contra o inimigo comum. Justo, piedoso, leal e corajoso, capaz de humilhar um soberano e de saciar a sede de um leproso, o personagem angaria admiradores por onde passa.

O longa tem vários pontos altos. Admirável o duelo pela cidade de Caloharra, que coloca frente a frente Heston e o representante do reino de Aragão. Igualmente as sequências que envolvem os cercos a Valência.


Heston é o herói espanhol

Famoso pelas atuações em superproduções, como Os Dez Mandamentos (1956) e Ben-Hur (1959), Heston mostra aguda maturidade no filme de Mann. Deve-se registrar que o astro trabalhou, em 1958, no sensacional A Marcada da Maldade, dirigido por Orson Welles.

A Espanha moura foi um período singular da história. No território, onde cristãos, judeus e mulçumanos viveram pacificamente, floresceu uma cultura esplendorosa, de poetas, filósofos e cientistas.

O comovente romance Sombras da Romazeira, de Tariq Ali, descreve os derradeiros momentos da Granada mourisca. O livro saiu no Brasil pela editora Record.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O Homem que Ri

Obra sensível, O Homem que Ri (Estados Unidos, 1928, mudo) tem nos créditos dois nomes importantes do movimento expressionista alemão: o diretor Paul Leni e o ator Conrad Veidt. Baseado no romance homônimo de Victor Hugo, o longa emociona.

Inglaterra, século 17. Vingativo, o rei Jaime II sequestra e vende o filho de um nobre rebelde, morto dentro da dama de ferro, instrumento de tortura e execução. O rosto da criança é desfigurado, esculpindo-se na face um perpétuo sorriso. O pequeno, herdeiro de um ducado, torna-se atração circense, o famoso palhaço Gwynplaine (Veidt). Após ser reconhecido como legítimo sucessor, o herói, insatisfeito com a hipocrisia aristocrática, terá de fugir para viver com os seus. Diante da hostilidade, Gwynplaine reafirma a dignidade do homem.

No curso da tragédia, às vezes, existe salvação. No amor da atriz cega Dea (Mary Philbin) ele encontra a chance de ser feliz.

Atuação extraordinária de Veidt. A caracterização de Gwynplaine originou o personagem Coringa, arqui-inimigo de Batman.


Personagem originou o Coringa

Mítico ator, Veidt (1893-1943) celebrizou-se no papel de Cesare, o sonâmbulo assassino de O Gabinete do Doutor Caligari (1920). O último sucesso foi Casablanca (1942), na pele do major alemão Strasser – Veidt recebeu o maior cachê do elenco.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ver-te-ei no Inferno

Sean Connery e Richard Harris estão à frente do elenco de Ver-te-ei no Inferno (The Molly Maguires, Estados Unidos, 1970). O drama é dirigido por Martin Ritt, o mesmo de O Indomado.

No Estado da Pinsilvânia (EUA), em 1876, um série de atos de sabotagem ocorre em minas de carvão onde trabalham imigrantes irlandeses. A primeira cena, que dura pouco menos de 10 minutos, ilustra essa estratégia e o tom da película.

Esse plano de resistência é levado a cabo por um grupo de mineiros (os molly maguires), cujo líder é Jack Kehoe (Connery). As condições de vida são aviltantes. A atividade de extrair o minério, duríssima. Os salários, irrisórios. Crianças laboram nas jazidas.


Connery e a luta dos mineiros

A fim de identificar os integrantes da organização, a polícia envia um agente, James McParlan (Harris). O investigador deverá se infiltrar entre os trabalhadores e identificar os militantes. Apesar de alguma simpatia com os molly maguires, McParlan cumprirá a missão.

A Igreja condena a facção de Kehoe. O padre do vilarejo afirma que eles irão para o "inferno". Mas, na razão e sentimento de cada explorado, a vida de quem deve descer às minas para sobreviver também é infernal. Por isso, a luta, independente do desfecho.

O francês Émile Zola escreveu Germinal, livro que narra uma greve de mineiros na França no século 19. Nele, os desafios da organização embrionária da classe operária são descritos com arte e exatidão. O filme Germinal  com Gérard Depardieu e direção de Claude Berri (Bélgica-França-Itália, 1993) é uma ótima adaptação.

domingo, 24 de junho de 2012

O Gavião do Mar

Típico capa e espada, O Gavião do Mar (Estados Unidos, 1940) é mais um clássico de aventura dirigido por Michael Curtiz e estrelado por Errol Flynn. A trama, que se passa em 1585, envolve o espectador – do início ao fim.

Flynn é o capitão Geoffrey Thorpe, um dos gaviões do mar, corsários a serviço da rainha inglesa Elizabeth I (Flora Robson). À época, a Inglaterra tenta resistir à expansão da Espanha, principal potência mundial. Em missão no Panamá, Thorpe e a tripulação do navia Albatroz caem em uma armadilha. Tornam-se prisioneiros dos espanhóis. Quando conseguem fugir, descobrem um plano de Madri para atacar a ilha.

Claro, não poderia faltar dose de romance. Em uma abordagem, Thorpe apaixona-se por dona Maria (a bela Brenda Marshall), sobrinha do embaixador da Espanha na corte inglesa, don José Alvarez de Cordoba (Claude Rains).


Rainha e o corsário

A película de Curtiz pode ser incluída na lista das obras do chamado esforço de guerra, como Casablanca (Estados Unidos, 1942). No ano em que O Gavião do Mar foi feito, 1940, o mundo vivia sob a agressão nazista. A Inglaterra, particularmente, resistia aos ataques alemães.

Há, na realização de Curtiz, um claro paralelo. Por isso a fala de Elizabeth I, no final do longa, ganha uma dimensão histórica especial. Reproduzo parte, pois vale a pena: "E agora, meus leais súditos, um terrível dever nos confronta. A preparação de nosso país para uma guerra que ninguém deseja, muito menos sua rainha. Tentamos por todos os meios evitar essa guerra. Não temos disputas com o povo da Espanha ou com qualquer outro povo".

E continua, agora com implícita menção a Hitler: "Mas quando a ambição impiedosa de um homem ameaça capturar o mundo, torna-se obrigação solene de todos os homens livres afirmar que a Terra pertence não só a um homem, mas a todos os homens. E que a liberdade é o compromisso para com o solo em que vivemos. (...)".

Elizabeth I, então, apresenta a nova Marinha real, que vencerá a Grande Armada espanhola, de Filipe II.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Indomado

O Indomado (Hud, Estados Unidos, 1963), de Martin Ritt, é um trabalho ilustre na trajetória de Paul Newman. À época, já era um astro consagrado, tendo no currículo filmes como Gata em Teto de Zinco Quente (1958), Exodus (1960) e Desafio à Corrupção (1961).

Hud Bannon (Newman) é um indomado, explosivo e egoísta filho de um velho fazendeiro do Texas, Homer Bannon (Melvyn Douglas). Hud, mergulhado no álcool e em aventuras amorosas, vive em permanente conflito com o pai. O neto de Homer e sobrinho do personagem princial, Lonnie Bannon (Brandon De Wilde, o pequeno Joey Starrett, de Os Brutos Também Amam), idolatra o tio. O pai de Lonnie morreu em um acidente de automóvel, causado pela imprudência de Hud. Completa o quadro familiar Alma Brown (a ótima Patricia Neal, de Bonequinha de Luxo), empregada doméstica – Newman tenta seduzi-la constantemente.

Newman e Patricia

Na espiral que envolve pai e filho, as agressões aumentam de intensidade. "Você é um homem sem princípios, Hud", acusa Homer. Após um bate-boca com Hud, o patriarca diz para o neto: "Às vezes, os velhos são duros como as suas artérias".

Cena de extrema tensão ocorre quando Hud, após beber e brigar com o pai, tenta violentar Alma. Devido à intervenção de Lonnie, o ato não se consuma.

Aos poucos, todos abandonarão, de um jeito ou de outro, Hud.

Indicado a sete categorias do Oscar, o drama venceu três: Melhor Ator Coadjuvante (Douglas), Melhor Atriz (Patricia) e Melhor Fotografia – a película é em preto e branco.

Mitt teve problemas com o macartismo, onda anticomunista que abalou os Estados Unidos durante os anos 40 e 50. A fim de manter-se em atividade, deu aulas no Actors Studio, escola de interpretação localizada em Nova York. Entre seus alunos, Newman e James Dean.

Mitt dirigiu Norma Rae (1979), sobre o movimento sindical, e Ver-te-ei no Inferno (1970), a respeito da luta de mineiros irlandeses na Pensilvânia – para muitos críticos, sua melhor realização.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Baile

O Baile (Le Bal, 1983), produção da França, Itália e Argélia, é uma das realizações mais inteligentes da sétima arte. Dirigido pelo italiano Ettore Scola (Feios, Sujos e Malvados e A Viagem do Capitão Tornado, entre outros), a película, sem diálogos verbais, causou frisson, colhendo aplausos e prêmios. Perfeita combinação de interpretação, direção, roteiro e fotografia.

Gravado em um único cenário, um salão de baile, a obra narra parte da história da França no século 20, dos anos 1930 à década de 80. Fatos marcantes, como a vitória da Frente Popular (coalização de socialistas e comunistas), a ocupação nazista e o Maio de 1968, são referidos. Tudo acompanhado por danças, músicas e ritmos da respectiva época. O elenco é composto pela trupe do Théatre du Campagnol. Aproximadamente 25 atores se revezam em cena, representando cerca de 140 personagens.


Um feito do cinema

Há emoção, humor (as gags são muito engraçadas), nostagia e tristeza – afinal, certa hora a festa acaba, e muitos vão sozinhos para casa.

Durante o labor, Scola sofreu um ataque cardíaco. O longa foi retomado após a sua recuperação. Em 1984, Scola recebeu pelo trabalho o Urso de Prata no Festival de Berlim.

O Baile é inesquecível. Uma façanha.