terça-feira, 31 de julho de 2012

Vaidosa

Bette Davis e Claude Rains formam o par romântico de Vaidosa (Mr. Skeffington, Estados Unidos, 1944). Sob a direção de Vincent Sherman, Bette mostrou, novamente, porque é considerada uma das grandes atrizes do cinema.

Em 1914, quando estoura a Primeira Guerra Mundial, a bela Fanny Trellis (Bette), jovem de família tradicional e arruinada de Nova York, atrai inúmeros pretendentes. Coquete, recebe pedidos de casamento, sem aceitá-los ou rejeitá-los. A situação muda quando o irmão Trippy (Richard Waring) desvia dinheiro da empresa em que trabalha. Para ajudá-lo, Bette contrai matrimônio com Job Skeffington (Rains), empregador de Trippy. Mas Fanny despreza o marido e continua cercada de aspirantes.

Bette Davis e Claude Rains

O filme está repleto de diálogos inteligentes e divertidos. "Fanny, uma mulher é bonita quando é amada. Só quando é amada", afirma Job. "Bobagem. Uma mulher é bonita quando dorme oito horas por noite e vai ao salão de beleza todos os dias", responde Bette. Claro, a constituição óssea ajuda, completa.

Vaidosa, fútil e narcisista, Fanny vive de aparências o cotidiano, sob bases de barro. A existência, porém, se altera radicalmente quando seu rosto é devastado pela difteria.

Os acontecimentos da história se desenrolam por vários anos – até os crimes antissemitas do nazismo, denunciados na obra.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Verão de 42

No verão de 1942, éramos adolescentes e Dorothy, a mulher mais linda do mundo. Belo e nostálgico, Verão de 42 (Summer of '42, Estados Unidos, 1971), do diretor Robert Mulligan, é um filme autobiográfico sobre a perda da inocência e a descoberta do amor. No Brasil, foi exibido com o nome Houve Uma Vez Um Verão.

A musa Jennifer O'Neill

Ao lado de seus dois melhores amigos, Hermie (Gary Grimes), garoto de 15 anos, passa as férias com a família na praia. Em meio às aventuras típicas da idade, Hermie se apaixona por Dorothy (a modelo Jennifer O'Neill), esposa de um militar, que vai para a guerra, e chamada de "coroa" pelos companheiros do herói.

Uma das cenas memoráveis acontece no cinema. Na tela, Now, Voyager (Estranha Passageira, com Bette Davis e Paul Henreid). Cartazes com os rostos de Humphrey Bogart, Cary Grant e Errol Flynn decoram a entrada, o que reforça a sensação de realidade temporal.

Hermie jamais revê Dorothy, tampouco sabe o que ocorreu com a musa.  Por fim, constata que a vida é feita de idas e vindas. De perdas e ganhos.

A trilha sonora de Michel Legrand, que ganhou o Oscar pelo trabalho, marcou época.

Após o lançamento da película, o roteirista Herman Raucher (o Hermie verdadeiro) recebeu várias cartas de pessoas que se diziam ser Dorothy. Uma era autêntica. A mulher mais linda do mundo no verão de 42 havia se casado novamente e era avó.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Doutor Jivago

Filme de imagens e cores marcantes, Doutor Jivago (Estados Unidos, 1965) simboliza o grande espetáculo cinematográfico. Adaptado do romance homônimo do escritor soviético Boris Pasternak (1890-1960), insere-se nas superproduções assinadas pelo diretor David Lean: A Ponte do Rio Kwai (1957), Lawrence da Arábia (1962) e A Filha de Ryan (1970).

A Revolução Russa de 1917 é o pano de fundo do drama. Jovem médico e poeta, Iuri Jivago (Omar Sharif) divide-se entre duas mulheres: a esposa aristocrática Tonya (Geraldine Chaplin) e a amante plebeia Lara (Julie Christie). Os radicais acontecimentos arrastam os personagens ao vórtice caótico do período. A vida comum se estilhaça.


Lara e Jivago

Jivago contém, em si, o germe da tragédia pessoal e política. Nutre leve simpatia pelo novo regime, porém o grupo dirigente rejeita sua poesia, considerando-a "individualista".

Ao som de balalaica e do Tema de Lara (música memorável, composta por Maurice Jarre), esse homem atravessa, com os olhos lacrimejantes, as estepes congeladas e a história da Rússia. Serve em um hospital militar durante a Primeira Guerra Mundial. Testemunha a turbulência pré-revolucionária e o início da implantação da experiência socialista. Vivencia a brutalidade da guerra civil. No meio de tudo, e apesar de tudo, Tonya e Lara se fazem presentes.

Cenas impressionam. No começo da narrativa, a ventania força um galho a bater na janela onde está deitado o pequeno órfão Iuri. Muito depois, Jivago quebra uma janela para ver desaparecer Lara na imensidão coberta de neve.

Outros atores de peso atuam na película. Rod Steiger interpreta Victor Komarovsky, amigo do pai de Jivago e indivíduo diabólico – será decisivo no destino do herói. Alec Guiness vive o irmão unilateral de Iuri, Yevgraf Jivago, membro do Partido Comunista. Klaus Kinski incorpora o anarquista condenado a trabalhos forçados – bom lembrar, os anarquista foram militantes de linha de frente nos primórdios da revolução.

Doutor Jivago conquistou cinco estatuetas do Oscar. Entre elas, o de Melhor Fotografia – A Cores e Melhor Trilha Sonora.

Obra-prima. Obra-prima absoluta.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Neve Ardente

A Batalha de Stalingrado representou a virada da maré na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A vitória soviética significou o começo da derrocada da Alemanha hitlerista. Apesar do alto grau de incerteza, o Terceiro Reich estava com os dias contados. O filme Neve Ardente (União Soviética, 1972), do diretor Gavriil Yegiazarov, revela parte do gigantesco esforço, heroísmo e sacrifício do Exército Vermelho.

Após resistir à agressão de forças nazifascistas, que tentavam ocupar a cidade, em novembro de 1942 os soviéticos desfecharam contragolpes. Aproximadamente 230 mil agressores alemães e romenos ficaram cercados em Stalingrado, criando-se um bolsão. Tanques tentaram romper a barreira e foram repelidos. O longa reconstitui esse combate.

O principal foco narrativo reside na ação dos integrantes de uma unidade de canhões do Exército Vermelho.

A cena em que os soldados soviéticos rumam ao front, sob tempestade de neve, é extremamente bem feita. Com sequências de forte realismo, a resistência da bateria contra os blindados comove. Impossível esquecer o momento no qual, no auge dramático da ofensiva, a camarada enfermeira Tânia (Tamara Sedelnikova) deixa um ferido para municiar a peça de artilharia – os homens estão quase todos mortos e é imprescindível evitar a quebra da posição.

Bateria heróica

Stalingrado – ou a Cidade de Stalin, em russo – foi a maior e mais sangrenta batalha do conflito. Lutava-se corpo a corpo, prédio a prédio, rua a rua. Por dia, morriam cerca de 5 mil pessoas. A União Soviética teve  mais de 1,1 milhão de baixas. As forças do Eixo, 700 mil (400 mil eram alemães).

A respeito do assunto, o francês Jean-Jacques Annaud realizou, em 2001, o primoroso Círculo de Fogo (a travessia do rio Volga e a visão da cidade são dantescas).

Livro indispensável sobre o tema, Stalingrado – o Cerco Fatal, do historiador britânico Antony Beevor, detalha o evento.

domingo, 22 de julho de 2012

O Homem Invisível

Dois anos depois de realizar o célebre Frankenstein (1931, com Boris Karloff), James Whale dirigiu talvez a melhor adaptação de um livro de H. G. Wells para o cinema: O Homem Invisível (Estados Unidos, 1933). Este integra a lista dos principais filmes de ficção científica e horror já produzidos – as sequências, porém, não tiveram o mesmo impacto.

Longa de trucagens ímpares, conta a história de Jack Griffin (Claude Rains), que descobre uma fórmula para se tornar invisível e a usa em si mesmo. O feito, ao invés de promover o bem, leva medo e insegurança à sociedade. Ser extraordinário, O Homem Invisível tornar-se irascível e ambicioso, sob o constante temor de jamais retornar ao estado natural. Criatura anormal, que causa espanto por onde passa, será caçado pelas autoridades.

A situação, paradoxal, revela-se extremamente incômoda para Griffin. A fim de ser notado, deve andar coberto de ataduras. A luz, mesmo com as pálpebras fechadas, afeta os olhos.

Um ser extraordinário

Inesquecível o momento em que o rosto de Griffin surge na tela – até lá, somente sua voz é conhecida. Ponto alto da magia do cinema.

No elenco, Henry Travers e Gloria Stuart – a idosa Rose, personagem que narra a trama de Titanic (1997).

A película mostrou o talento de Rains a Hollywood. Intérprete prodigioso, atuou em sucessos como Casablaca (1942) e Interlúdio (1946).

Com O Homem Invisível, encerra-se o ciclo cinematográfico sobre obras de Wells.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Os Primeiros Homens na Lua

Não foi em 1969, mas em 1899 que o homem aterrissou na Lua. Entrou em contato com os selenitas, hipotéticos habitantes do satélite. O território foi tomado em nome da rainha Vitória, da Inglaterra. A história é narrada no clássico Os Primeiros Homens na Lua (Reino Unido, 1964), adaptação da novela homônima de H. G. Wells realizada pelo diretor Nathan Juran.

Arnold Bedford (Edward Judd) vive um homem às voltas com credores. Isolado em uma pequena casa no interior inglês, tenta transformar-se em dramaturgo. Conhece o vizinho Joseph Cavor (Lionel Jeffries), excêntrico e cômico cientista, inventar da substância cavorita, capaz de eliminar o efeito de gravidade, o que possibilita a viagem – infelizmente, a fórmula química se perdeu...

Cavor forjou uma esfera de metal, que será o meio de transporte dos intrépidos astronautas. Por acaso, a namorada de Arnald, Katherine Callender (Martha Hyer), acompanha a dupla na jornada.


Um clássico de 1964

Após pousar no solo lunar, começam a exploração. Enfrentarão perigos. Mas, afinal, o que de bom o homem pode mostrar a outra civilização? Violência e guerra, conforme Wells. Enquanto Arnold quer retornar, Cavor deseja aprender com os selenitas.

As cenas que passam no interior da espaçonave merecem destaque, assim como os cenários lunares e os efeitos especiais, a cargo do mestre Ray Harryhausen. Diga-se que Juran, antes de abraçar a direção, foi respeitado cenógrafo – deve-se a ele o elogiado desenho cênico de O Fio da Navalha, na versão de 1946 (conferir postagem).

Os Primeiros Homens na Lua diverte e agrada o espectador.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Máquina do Tempo

O destino do homem é sombrio, segundo H. G. Wells. Com o mesmo espírito do autor, o diretor húngaro George Pal realizou a principal versão cinematográfica da novela A Máquina do Tempo. O filme (The Time Machine, Reino Unido, 1960) tornou-se clássico da ficção científica.

Londres, último dia do ano de 1899. O inventor – interpretado por Rod Taylor – H. George Wells (homenagem ao escritor, pois no livro chama-se apenas O Viajante do Tempo) cria uma máquina capaz de o transportar ao futuro.

Rumo ao futuro sombrio

Primeiro, alguns minutos; depois, horas, dias e anos; por fim, séculos e milênios. Testemunha as mudanças na moda, as guerras mundiais e a aniquilação atômica.

A viagem o leva, 800.000 anos depois, ao lugar da antiga Londres, agora dominado por florestas e onde vivem duas comunidades opostas. Os elois, dóceis e indiferentes pelos seus iguais; e os morlocks, monstruosos seres dominadores que habitam o interior da Terra. Um terrível mistério envolve ambas. A eloi Weena (Yvette Mimieux) ajuda George a descobrir a verdade e a responder: afinal, o que aconteceu com a civilização humana?

Ao retornar à sua época, após enfrentar enormes perigos, George traz uma flor murcha. Qual outro símbolo poderia ser mais eloquente do porvir?

O longa arrebatou o Oscar na categoria de Melhores Efeitos Especiais. Em 1963, Taylor participou do último grande sucesso de Alfred Hitchcock: Os Pássaros.

A máquina foi salva. O Viajante do Tempo pode estar entre nós.