quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A Mulher na Lua

Dois anos após filmar o icônico Metrópolis, o diretor Fritz Lang foi atraído novamente à ficção científica. Mais "modesto" na temática visionária que o anterior, A Mulher na Lua (Frau im Mond, Alemanha, 1929), fruto da parceria com a escritora e roteirista Thea von Harbou (mulher do cineasta), tem cenas sensacionais.

No fim do século 19, um cientista apresenta a teoria de que há ouro na Lua. Passam-se décadas, até que, enfim, uma expedição é enviada ao satélite terrestre. O heterogêneo grupo, composto por seis pessoas, entre elas a estudante de astronomia Friede Velten (Gerda Maurus), mostra a força da cobiça, do amor e da morte.

O melhor da película começa a partir do momento em que o foguete – construção gigantesca – desliza rumo à plataforma de lançamento. As dimensões do dispositivo, ao deixar o hangar, impressionam. Como se fosse o Cabo Canaveral, nos Estados Unidos, o público e a imprensa acompanham a partida.

Contagem regressiva. (...) Quatro. Três. Dois. Um. Ignição. O foguete segue para o espaço, fronteira desconhecida do homem. Também chama a atenção o fato de ele se dividir em estágios, como os do Projeto Apollo. Além disso, Lang retrata, no interior da espaçonave, a microgravidade – ausência de peso. A superfície lunar ganha contornos arenosos e pedregosos. Magia do cinema.


Filme é da mesma estirpe de outros clássicos da ficção científica

A Mulher na Lua é da mesma estirpe de outros clássicos da tela. Exemplos. A Conquista do Espaço (1955), de Byron Haskin, notável pelas trucagens. Os Primeiros Homens na Lua (1964), adaptação da novela homônima de H. G. Wells e dirigido por Nathan Juran. 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), espetáculo visual assinado por Stanley Kubrick.

Depois de A Mulher na Lua, Lang roda, em 1931, o fenomenal M, o Vampiro de Düsseldorf, com Peter Lorre à frente do elenco. Em 1932, Thea ingressa no Partido Nazista e permanece na Alemanha, a serviço da súcia, enquanto Lang, em 1934, emigra para os Estados Unidos, onde prossegue a carreira.

sábado, 14 de setembro de 2013

Seção Especial de Justiça

O grego Constantin Costa-Gavras, que completou 80 anos em fevereiro, tornou-se mundialmente conhecido como um diretor de filmes "políticos". Denunciou a ditadura dos coronéis gregos em Z (1968); a burocracia stalinista do Leste Europeu em A Confissão (1970); o envolvimento americano no golpe militar no Chile em Desaparecido, um Grande Mistério (1982) – o meu predileto, aliás.

Em Seção Especial de Justiça (Section Spéciale, Alemanha-França-Itália, 1975), Costa-Gavras aborda um tema vexatório e doloroso na França: o colaboracionismo durante a Segunda Guerra Mundial.

Tropas alemãs invadem o território francês em maio de 1940. Cinco semanas de luta depois, Paris se rende. O país é dividido em duas zonas. Uma, subordinada diretamente a Berlim. Outra, controlada pela administração fantoche do marechal Henri Philippe Pétain  – o regime de Vichy. O governo, de direita, fica marcado pela faceta pró-nazista, anticomunista e antissemita.  Ao utilizar fatos reais, Costa-Gavras lança luzes sobre o período.

Nos primeiros tempos de ocupação, pequeno grupo de jovens da Resistência mata um oficial alemão no metrô parisiense. Os alemães, como retaliação, pretendem assassinar 50 cidadãos franceses. O Ministério propõe diferente caminho: levar a juízo seis homens, condenando-as à morte na guilhotina. Porém, existe problema: não há lei que os puna.

A cúpula do governo resolve criar norma prejudicial aos acusados, com efeito retroativo, ferindo um princípio do Direito. Nullum crimen, nulla poena, sine lege, diz o brocardo. Ou seja, "Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal", na expressão do Código Penal brasileiro.

Apesar da renitência de alguns juristas, logo a ideia recebe a adesão de membros do Judiciário. Então, a malta, de posse do novo texto legal, forja um tribunal de exceção, a Seção Especial de Justiça. A corte julga os réus, escolhidos entre comunistas e judeus condenados por delitos de baixo potencial ofensivo. A injustiça da medida é flagrante, explícita. Capítulo vergonhoso da história francesa.


Filme aborda o governo de Vichy e medidas legais injustas 

No elenco, dois nomes se destacam. Michael Lonsdale (O Nome da Rosa e Homens e Deuses), no papel de ministro do Interior, e Jacques Perrin (Cinema Paradiso), que interpreta um dos advogados.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Cinema e os 40 anos do golpe militar no Chile

O golpe militar no Chile completa 40 anos neste 11 de setembro. O movimento da direita radical derrubou o presidente socialista Salvador Allende e conduziu ao poder o general Augusto Pinochet. A via chilena do socialismo foi interrompida, o que resultou numa das ditaduras fascistas mais brutais do continente.

Há vários e excelentes filmes sobre o período. O blog destaca dois.

Chove Sobre Santiago (1975), do diretor Helvo Soto, retrata aqueles dias dramáticos, da vitória da Unidade Popular à ascensão dos militares. A obra mostra as prisões e fuzilamentos de militantes pró-governo constitucional. A trilha sonora é do argentino Astor Piazzolla.

Desaparecido, um Grande Mistério (1982), realizado por Costa-Gavras. O longa, com Jack Lemmon no elenco, mostra a história do sumiço de um jornalista americano nos primeiros dias após a queda de Allende.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Rebecca, a Mulher Inesquecível

Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca, Estados Unidos, 1940) abre a fase americana do diretor britânico Alfred Hitchcock. Notável suspense, ganhou o Oscar nas categorias Melhor Filme e Melhor Fotografia em Preto e Branco. No elenco, Laurence Olivier,  Joan Fontaine – em começo de carreira –, Judith Anderson e George Sanders. Hitchcock mostra, de forma exemplar no longa, a riqueza de seus recursos técnicos, fonte de admiração.

Joan interpreta uma jovem humilde – o prenome é desconhecido – que se apaixona pelo rico e aristocrata Maxim de Winter (Olivier). Viúvo, ele é perseguido pela lembrança da falecida esposa, Rebecca. Após o rápido casamento, os dois passam a viver em Manderley, vasta propriedade da família de Maxim.

A luxuosa casa é impregnada de marcas de Rebecca. O ambiente intimida a nova sra. De Winter, mulher frágil e insegura. A governanta sra. Danvers, interpretada magistralmente por Judith Anderson, aterroriza a sucessora, não admitindo que ela assuma o seu lugar de direito. As sequências em que as duas contracenam são sensacionais, com requintes psicológicos que dão à película momentos de tensão.


Joan Fontaine e Judith Anderson contracenam em notável suspense

Sob a sombra da antecessora, a sra. De Winter passa os dias atormentada, por vezes solitária, o que culmina na dramática cena do baile à fantasia. Atrás de informações sobre Rebecca, a personagem de Joan colhe, pouco a pouco, segredos da mansão. A narrativa Hitchcock alcança novo e vertiginoso ritmo com a surpreendente reviravolta da história.

Depois do sucesso de Rebecca, a Mulher Inesquecível, Laurence Olivier consolidou-se como grande ator shakespeariano também nas telas. Joan Fontaine, irmã de Olivia de Havilland e, assim como esta, um dos mais belos rostos de Hollywood, continuou a exitosa carreira. Nonagenárias, as duas são memórias vivas dos anos de ouro da indústria cinematográfica americana. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Presidente e o cinema

A aventura da presidente Dilma Rousseff a bordo de uma motocicleta em Brasília, se verdadeira ou não, parece história de cinema. Filmes clássicos abordaram o tema.

Em A Princesa e o Plebeu (1953), dirigido por William Wyler, a jovem Ann, entediada da rotina palaciana, foge pelas ruas de Roma. Interpretada por Audrey Hepburn, a personagem conhece o repórter Joe Bradley, vivido por Gregory Peck. Sobre uma motoneta, os dois percorrem as paisagens da Cidade Eterna.

A diva Greta Garbo estrelou Anna Christie (1930), do cineasta Clarence Brown. No longa, a atriz interpreta a rainha da Suécia Anna Christie. Cansada do dia a dia de governo, ela parte, vestida de homem, a cavalo por estradas do país. No caminho, encontra o amor.

O saldo das aventuras foi inesquecível. Ao menos na grande tela.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A Ponte do Rio Kwai

Modelo de megaespetáculo das telas, A Ponte do Rio Kwai  (The Bridge on the River Kwai, Estados Unidos-Reino Unido, 1957) foi a primeira superprodução assinada por David Lean. Diretor de Lawrence das Arábias (1962), Doutor Jivago (1965) e A Filha de Ryan (1970), alcançou, com aquele título, o reconhecimento do grande público. Baseado no romance homônimo de Pierre Boulle (1912-1994), A Ponte do Rio Kwai tem, como pontos memoráveis, a música contagiante, a atuação do astro Alec Guinness e os cenários grandiosos e autênticos.

Em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, em meio às quentes e chuvosas selvas do sudeste asiático, o Japão constrói a Ferrovia da Birmâmia (hoje, Myanmar). A estrada de ferro ficou conhecida pelo nome de Ferrovia da Morte, devido ao elevado número de trabalhores que perderam a vida durante a empreitada. As tropas nipônicas utilizaram exaustivamente a mão de obra de prisioneiros aliados. Esse é o pano de fundo da película.

O rígido coronel Nicholson (Guinness) decide mostrar aos algozes que o soldado britânico, mesmo encarcerado em um campo de detenção, é disciplinado e possui inflexível moral. Ele assume a tarefa de erguer, em prol do inimigo, uma sólida ponte sobre o rio Kwai, motivo de júbilo para quem a fazê-la. Por ela serão transportados tropas e equipamentos bélicos.

Ao contrário de Nicholson, que rejeita a fuga, o major americano Shears (William Holden) fixa o objetivo de escapar. Após conseguir o que tanto almeja,  deve retornar à região. Sob as ordens do major Warden (Jack Hawkins, excelente ator), Shears integra o comando britânico encarregado de explodir a passagem férrea. A missão põe em xeque o orgulho e a lealdade de Nicholson.


Megaprodução foi um sucesso de público e crítica

A Ponte do Rio Kwai tem 161 minutos de duração. O longa recebeu inúmeros prêmios. Sete Oscars (entre eles, o de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator – Guinness – e Melhor Fotografia) e o David di Donatello, de Melhor Filme Estrangeiro, foram alguns dos concedidos.

Uma inesquecível experiência cinematográfica.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Sementes do Mal

Semente do Mal (Mauvaise Graine, França, 1933) é o primeiro filme dirigido por Billy Wilder, criador de Cinco Covas no Egito (1943), Farrapo Humano (1945), Crepúsculo dos Deuses (1950), Quanto Mais Quente Melhor (1959) e outros marcos da grande tela. Nascido no ano de 1906 em uma família judaica vienense, escapou de Berlim em 1933, quando os nazistas ascenderam ao poder – a mãe e avós foram assassinados em Auschwitz. Mudou-se para Paris e, posteriormente, aos Estados Unidos. Após enfrentar dificuldades econômicas (o lendário ator Peter Lorre o ajudou), conseguiu entrar na indústria cinematográfica.

O longa de estreia conta a história do jovem Henri Pasquier (Pierre Mingand), bon-vivant que, depois de brigar com o pai, renomado médico, ingressa em uma quadrilha de ladrões de carro que age na capital francesa. A obra tem qualidades que consagraram Wilder como roteirista e diretor. Movimento dinâmico da câmera, crítica social, aguda visão humana, sensualidade estão presentes na película.

O modus operandi do grupo criminoso é simples e comum. A bela Jeannette (Danielle Darrieux) atrai motoristas incautos para a armadilha. Com a vítima distraída, em cafés ou restaurantes, telefona aos comparsas, informando a localização do veículo, modelo (Studebaker, por exemplo) e placas. Cúmplices vão ao "teatro de operações" e efetuam o furto. Os automóveis, com cores e número de identificação trocados na oficina, são vendidos a receptadores.


Filme, rodado na França, marca a estreia de Billy Wilder como diretor

Henri mostra "talento" para a prática do delito. Ao lutar em prol da melhor divisão dos lucros, choca-se com os interesses do líder da organização. Apaixonado por Jeannete, Henri tenta nova vida. Aliás, o espectador deve ter atenção na tomada que mostra o par caminhando na estrada.

Wilder voltou a conduzir filmes em 1942, com A Incrível Suzana. A partir de então, construiu carreira respeitada em Hollywood, mesmo com altos e baixos. Poucos, porém, tiveram trajetória tão prolixa e meritória.